Tuesday, March 06, 2007

CRIAÇÃO

Clarão.
Criei.

* * *

Estava imóvel, bem ali, em estado de graça e desgraça ao ter a cria em minhas mãos. Um trabalho sujo e rápido sem cuidado e sem carinho.
Era meu Frankenstein.
* * *


Dirigia impunemente, sem rumo algum, sem nada a perder.
O pára-brisa dançava freneticamente permitindo que eu visse a rua deserta.
Olhava o assento ao lado, esperando que surgisse alguma boa companhia.

O silêncio da cidade era assustador.
Ouvia, para apaziguá-lo, um lento blues, que me instigava levemente a tragar.
Uma mão acompanhava o volante e a outra, o cigarro.
Estava chegando em Copacabana.

Aquela noite o diabo resolvera brincar.
Eu era o peão.

O ponteiro ultrapassava as duas da manhã,
Seria inviável retornar a casa.
Camila urraria como um responsável despertador
Meu descaso não a agradava nem de longe.

Parei o carro em uma esquina qualquer.
Desci.
Peguei mais um cigarro.
Em passos fúnebres e bêbados atravessei a rua.

Cheguei ao mar como num barco.
Parei.
Ancorei.
Guardei os remos

Ali fiquei por um bom tempo,
Refletindo inutilmente sobre minha situação com Camila.
Não havia mais condições.


As gotas começaram a cair
Em lentos compassos.
Meu corpo, anestesiado,
Permitia aquele banho impunemente

Cantei por dois minutos.
Contei algumas estrelas.
Inexplicavelmente levantei-me impulsionado por uma força estranha.
Caí na areia como que bebê

Após algumas horas
O dia estava para amanhecer
Encontrava-me próximo ao carro.
Extrapolei.

Ela parecia um anjo
Só que nada virgem
Nada casto.

A saia não deixava dúvidas sobre o ofício.
Muita menos a maquiagem.

Seus cabelos deslizaram para o lado.
O anjo me fitou.

Fui instigado ao prazer de forma incontrolável.
Aquela mulher não era desse mundo.
Seu olhar exercia sobre mim um poder tão forte
Jamais estivera sob o império de tamanho desejo.

O ato foi ali mesmo
No carro
De forma nada virtuosa.

O anjo pegou meu dinheiro
E saiu.
Achei que nunca mais a veria.

Um dia voltou
Trazendo um presente
era meu Frankenstein
filho da puta.

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